domingo, 29 de março de 2009

9* - Uma avaliação da campanha

Uma avaliação da campanha

O exército português mostrou fragilidades grandes na campanha. Neves Costa refere-se a elas muito claramente. Falta de oficiais experimentados em dirigir grandes unidades, de cavalaria capaz de reconhecer o inimigo, de efectivos.

Os vários problemas vão ser abordados logo de seguida. Assim, criou-se em Dezembro de 1801 uma comissão para a reorganização do exército, mais tarde em 1802, outra para remodelar o código de disciplina militar e a organização das coudelarias, necessárias para a remonta da cavalaria do exército. Na cavalaria cria-se logo em 1801 um Centro de Instrução na Azambuja, para onde são enviados destacamentos de todos os regimentos de cavalaria do exército. O general Forbes apresentará na primeira reunião da comissão, como solução para a falta de efectivos, a eliminação das Milícias e a reorganização das Ordenanças permitindo a "Leva em Massa" em caso de guerra, criando-se como na Prússia os soldados semestreiros, soldados que estando ao serviço do exército só serviriam dois meses por ano.

Muitas das opiniões de Forbes nesta Comissão Militar deram lugar a Leis, sendo dele a ideia de organizar o exército em três divisões, assim como ideia de criar seis legiões de tropas ligeiras, formadas por um batalhão de caçadores e um esquadrão de cavalaria ligeira, que serão criados em 1808 por D. Miguel Pereira Forjaz, secretário da comissão e seu colaborador desde 1790.

Estas propostas de Forbes, algumas radicais, provocaram a reacção dos seus velhos rivais, o marquês de Alorna e Gomes Freire de Andrade, este defendendo no seu livro de 1806 a manutenção da organização militar tradicional em 1.ª Linha, Milícias e Ordenanças. As propostas de reforma acabaram por não ser postas em prática em bloco, sendo postas em prática isoladamente. Mas em 1807 Portugal chegou ao fim do ano com o mesmo dilema. Sem forças militares em número suficiente só com um exército aliado poderoso poderia resistir a uma invasão franco-espanhola.

sexta-feira, 27 de março de 2009

- O orgulho de ser português

Vi este artigo e fiquei fascinado pelo mesmo. Espero que o apreciem como eu :)


" O Orgulho de ser Português ", por Armando Carlos Ferreira

Parte I

“ A vida apenas exige uma coisa, que cumpramos o nosso dever”. Leão Tolstói (1828-1910)

Nove milhões de Portugueses, cabem como por milagre, numa única palavra: Portugal! Nove milhões, em princípio, filhos - para o bem e para o mal - de alguns milhões de mães. Todos iguais, em termos de cidadania, mas todos diferentes. Desde logo na côr da pele. Diferenciados na idade. De diferentes idades culturais. Das mais díspares profissões. Quiçá com diferentes matrizes políticas. Umas por convicção, outras de índole panfletária. Outros ainda no fio da navalha, por serôdio comodismo, indiferentes, amorfos, cristalizados, vivendo na expectativa de que outros pensem por eles e no melhor, se possível, lhes resolvam os problemas. São aquilo a que Jean L´Arteguy, designou como os párias do tempo.

Diferentes igualmente, nas suas opções religiosas, pese embora o facto de lá muito no seu interior, se manterem cristãos, maioritariamente não assumidos.

Nestes tempos modernos, em que por laxismo, temos permitido, de forma inconsciente, a implosão dos mais importantes pilares da nossa civilização – a escola, a família e o espírito do altruísmo comunitário – perdeu-se no nevoeiro lusitano, aquela flâmula de servir. Não confundir com servilismo.

Nestes tempos impróbios, coexistem em Portugal, duas noções muito específicas: A Pátria e o País.

A Pátria tem as suas raízes alicerçadas em oito séculos de História, escrita com sangue, suor e lágrimas. É a nossa memória colectiva, assumidos, que sempre foram, os erros e as virtudes. As epopeias e as tragédias. O fausto e a pobreza.

Quando perdemos a nossa memória e as nossas raízes, corremos o risco de nos desintegrarmos.
O País (leia-se Estado) é por imposição, republicano, laico e agnóstico. Escrevo, por imposição, porque tendo como causa remota o crime hediondo e regicida do seu monarca (1) – o rei mais culto da sua geração a nível mundial e de seu filho herdeiro – não resultou de um veredicto popular (vulgo referendum) mas de interesses estrangeiros ocultos, expressos na força das baionetas e da metralha que se traduziu em 90 mortos e 300 feridos, muito aquém da aventura do CEP (Corpo Expedicionário Português, treinado à pressa no Polígono de Tancos) mal equipado, inadequadamente fardado para o teatro de operações, mal municiado e mal alimentado. Duvidas? A título de mero exemplo, de entre muitos, aconselhamos o leitor a ler uma colectânea de livros, da autoria de um conhecido historiador contemporâneo, com espaço num canal televisivo público. Num dos volumes, verificará o depoimento de um seu avô, já falecido, antigo combatente, reafirmar o que garantiu ainda em vida numa entrevista televisiva, que as praças no lamaçal das trincheiras, apenas dispunham de um par de peúgas. Lutaram e muitos morreram com dignidade e heroicidade. Fizeram-no pela Pátria, ou pela República? Julgo que certamente pela primeira, porque a segunda deles fez carne para canhão. Mas porque a História, infelizmente, se repete, este episódio, republicanamente falando, não seria virgem. Repetir-se-ia algumas dezenas de anos mais tarde. Tendo como cenário essa também longínqua – África.

É verdade não ser possível, reescrever a História. Mas não é menos verdade, não a podermos branquear.

Falamos hoje e ainda bem, sobre fenómenos há anos impensáveis, como o “stress pós traumático”, em relação aos ex-combatentes da guerra colonial.

Pessoalmente, conhecemos pessoas nascidas e criadas no Concelho de Torres Vedras, algumas já falecidas, outras ainda vivas, cujos avós foram combatentes na Grande-Guerra (1914-18) todos eles gaseados, os quais morreram com problemas do foro cancerígeno, tal como os filhos, estando aos netos (3ª Geração) diagnosticados de igual modo, cirroses, hepatites, leucemias. Alguma vez, transcorridos quase cem anos, existiu sensibilidade, tempo e independência, para se elaborar um imparcial levantamento científico credível desta e de outras situações?

Em que condições viveram? Que amostras de pensões tiveram? Coleccionaram pensões magnânimas, compaginadas em dimensão ao Convento de Mafra?

Serviram a Pátria, por convicção e ideário. O Estado usou-os em desfiles comemorativos, fez reluzir os seus peitos pejados de condecorações e depois descartou-os. Uns quantos foram para Runa (2), longe dos olhares e das visitas dos seus familiares, demasiado ocupados com o alto índice ocupacional da vida moderna.

A vida, permitiu-me conhecer, embora de forma indirecta, este cenário.

Ao invés de tudo quanto aqui relatamos e o muito que ficou por dizer, sobretudo por falta de espaço, sobrou tempo, imaginação e meios para termos um referendum sobre um crime contra a saúde publica – o aborto clandestino. Verdadeira falácia de poeira para os olhos.

Falemos claro: Capciosamente foi brandida a espada da Saúde Pública. Tema caro, acima de qualquer suspeita.

Mas o que estava por detrás, face às carências financeiras do regime, era o facto dos estimados vinte mil abortos clandestinos, ocorridos por ano, constituírem um mercado underground, ausente de qualquer controlo e livre de quaisquer impostos, desde o IVA, à Segurança Social, acabando no IRS e IRC.

Duvidas? Contas por baixo (defeito) à merceeiro e à antiga, bastará multiplicar o número referido por uma média de setenta contitos cada e obter-se-á uma avultada dimensão. A Saúde Pública, tal como a Escola, são meras falácias do regime republicano, laico e agnóstico, sobretudo quando em pleno século XXI, mais de quinhentos mil portugueses não tem direito a um médico de família.

Porque não se resolveu esse anátema de Portugal estar transformado, num verdadeiro bordel a céu aberto, de Norte a Sul, por estradas, matas, pinhais, ruas, quando não em viaturas em pleno dia, em relação à mais antiga profissão do mundo – a prostituição? Porque razão não se retira esse espectro a céu aberto, criando condições de salubridade e de dignificação, com regras perfeitamente claras, de descontos com direito a reforma? No passado, antes do aparecimento da penicilina (1928/41), tivemos verdadeiros dramas sociais, oriundos sobretudo da sífilis. Hoje na diáspora dos Magalhães, temos o ressurgimento industrial da tuberculose e do HIV (vulgo SIDA). Medo de perder votações em actos eleitorais? Então e a saúde publica?

Perante os problemas de desemprego em catadupa e fome já não disfarçada, tomem lá para entreter, referendos sobre assuntos pseudo-nucleares e não fracturantes da nossa sociedade. Hoje os gays. Amanhã a eutanásia. Depois, talvez e de novo a regionalização. No futuro, porque não o celibato…

No fundo, pouco me importa que o Estado republicano, laico e agnóstico, perca tempo em ejaculações precoces de TGV´s Madrid-Lisboa e não erradamente Lisboa-Madrid, como soa dizer o discurso oficioso do regime.

Podem orgulhosamente continuar a deitar foguetes, pois não tenho duvidas, como certamente muitos dos leitores, que tiveram paciência de nos ler, que serão os nossos Filhos e Netos a andarem esfalfados e tísicos a apanharem as canas da Feira das Vaidades, por outras palavras, a sacralização do poder, pelo poder.

A Pátria, que tem por Rainha a Imaculada Conceição (3) e por Arcanjo protector o Anjo de Portugal, dorme tranquila, incrédula e insuspeita, pese embora a alegoria popular de que “quem cala consente”.

O País, melhor dizendo o Estado, perante os problemas gravíssimos de gastar sumptuosamente, mais daquilo que produz e de se endividar galopantemente – para além das suas fronteiras – a níveis perigosíssimos, em relação ao PIB (Produto Interno Bruto), continua ciclicamente nesse seu hábito, quase secular, de perante os problemas, olhar para o lado a assobiar, de mãos nas algibeiras (seja-me permitido o desaforo, nesta nossa liberdade vigiada) a jogar quiçá, bilhar de bolso…

Reaccionário? Não, necessariamente. Antes, liberal. Por convicção. Somente não gosto, liminarmente, de ser ludibriado.

E como nós, certamente muitos dos Portugueses, os tais discípulos da diáspora e da ditosa Pátria minha Amada.

* Armando Carlos Ferreira

domingo, 22 de março de 2009

8* - A estratégia Portuguesa / As instruções de campanha

A estratégia portuguesa

O governo português sabia que havia um exército francês em Bayonne, e que a invasão de Portugal iria ser feita pela Galiza e pela Extremadura espanhola, pondo assim em perigo as províncias do Minho e Trás-os-Montes e a do Alentejo. O exército foi por isso dividido em 2 corpos. Um foi organizado nas províncias do Minho e de Trás-os-Montes sob o comando do quartel-mestre general marquês de La Rosière, o outro, sob o comando do inspector-geral da Infantaria o tenente-general Forbes, defenderá a fronteira da Beira e do Alentejo, tendo o controlo das poucas forças que são deixadas no Algarve sob a direcção do governador das Armas da província, Francisco da Cunha Menezes, Monteiro-mor do reino, oficial que tinha participado, enquanto coronel do regimento de infantaria de Cascais, na campanha do Rossilhão.

As instruções de campanha

As instruções dadas pelo duque de Lafões, tanto a La Rosière como a Forbes, são muito simples. Evitar "acções gerais e consumir o inimigo na guerra de postos" como escreve a La Rosière ou "evitar quanto possa acções gerais e decisivas adoptando o sistema da guerra, que lhe parecer mais próprio para retardar os progressos do inimigo, sem procurar a ruína deste por acções que possam também completar a nossa em um só dia", sendo que "a guerra de postos, e principalmente a de montanhas é a que mais nos convêm."

A estratégia no Alentejo é clara desde o princípio. Estabelecer um cordão de tropas de Nisa até Arronches, e logo que o exército espanhol invadir a província tentar manter-se o maior tempo possível na serra de São Mamede, sendo que o objectivo principal é impedir a travessia do Tejo, entre Abrantes e Santarém, pelo exército invasor. De acordo com estas instruções as forças de manobra na Beira, sob o comando do marquês de Alorna, servirão somente para proteger a retaguarda do exército do Alentejo e apoiar uma possível retirada deste exército atravessando o Tejo por Vila Velha de Ródão.

As fortalezas que se preparam para uma defesa efectiva foram no norte, Valença, Chaves e Bragança, na Beira Almeida e no Alentejo Campo Maior, Elvas e Castelo de Vide, sendo deixadas quase sem tropas de linha Juromenha e Marvão, sendo entregues à exclusiva defesa de tropas milicianas Olivença e Estremoz.

Os dois exércitos são organizados diferentemente. Assim, no Norte as 4 brigadas organizadas, das quais 3 estavam no Minho e uma em Trás-os-Montes, os regimentos de infantaria de linha foram misturados com regimentos de milícias, numa proporção de 1 para 3, tendo cada brigada também um esquadrão de cavalaria. No Alentejo, o exército é organizado em 3 divisões, divididas em brigadas, compostas só de tropas de infantaria de linha, sendo os regimentos de milícias utilizados nas fortalezas.

Forbes chegou a Estremoz, quartel-general do exército do Alentejo, a 21 de Março, estando já aquartelados os regimentos enviados de Lisboa, sob o comando de Gomes Freire de Andrade, esperando-se os batalhões enviados do Algarve.

As únicas tropas não ocupadas nas fronteiras estavam de guarnição em Lisboa. Dois regimentos de infantaria e metade dos 3 regimentos de cavalaria, assim como a Brigada de Emigrados franceses, que parece não se saber muito bem o que fazer com ela, já que estando destinada a fazer parte do exército do Norte, para lá não foi, tendo acabado por ser enviada para o Alentejo.

O exército espanhol concentrava-se nos princípios de Maio entre Badajoz e Alcântara, depois de se ter dirigido para Cidade Rodrigo por Alcântara, em Abril, enquanto que e o exército francês comandado pelo general Leclerc, cunhado de Napoleão Bonaparte, ia entrando em França dirigindo-se com muita dificuldade por Burgos para Salamanca e Cidade Rodrigo, enviando patrulhas para Alcântara, para fazer a ligação às tropas espanholas comandadas pelo regressado Manuel Godoy.

No dia 10 de Maio de 1801 houve um pequeno reencontro com tropas espanholas na fronteira, do lado de Portalegre. Não achando que fosse ainda o ataque geral, Forbes decidiu, de qualquer maneira, transferir o quartel-general de Estremoz para Portalegre em 18 de Maio, e avançar a linha de postos para a fronteira, concentrando o exército à volta de Castelo de Vide, Porto da Espada e Alegrete "aproximando assim todo o exército à Serra de São Mamede", mas a divisão comandada por D. António Soares de Noronha, ao transferir a sua divisão de Monforte, Arronches e Assumar para Alegrete, deixou desguarnecidas tanto Monforte como Arronches, povoações que deviam definir o flanco direito do exército de Forbes.

Quando Forbes chegou a Portalegre dia 20 soube do ataque do exército espanhol a Olivença, Juromenha, Elvas e Campo Maior. Olivença, que não estava em estado de se defender, rendeu-se logo por intermédio do seu governador, o coronel francês Jules César de Chermont. Juromenha que estava preparada para a defesa, e se esperava que demorasse os espanhóis algum tempo, impedindo-os de se dirigirem a Estremoz, rendeu-se também à primeira intimação. Mas as duas praças de Campo Maior e de Elvas em que se verdadeiramente confiava para retardar decididamente a invasão espanhola fizeram o que se esperava - defenderam-se.
A brigada de granadeiros e caçadores da Divisão do Centro, comandada por Bernardim Freire de Andrade, foi transferida para Alegrete para reforçar o ainda considerado flanco direito, sendo dois batalhões dos regimentos de Olivença da brigada de infantaria da direita mandados regressar a Arronches e Monforte por D. Miguel Pereira Forjaz, ajudante-general do exército do Alentejo. O erro de ter abandonado Monforte e Arronches não pôde ser colmatado totalmente, já que Monforte já estava ocupado pelos Espanhóis.

A defesa das duas fortalezas da raia fizeram com que o exército espanhol, tendo de se reorganizar para bloquear Elvas e sitiar Campo Maior, só tivesse começado a avançar de novo em 24 de Maio, tendo ocupado nesse dia Santa Eulália e Barbacena. Só 3 dias depois avançaram sobre Monforte. Em 29 de Maio foi a vez de a divisão espanhola da Vanguarda, comandada pelo general Solano, avançar em direcção a Arronches. Esta pausa só pode ser entendida pelo atraso nos transportes de víveres e munições. No dia anterior, dia 28 de Maio, chegou ao Crato a Brigada de Emigrados, comandada pelo general escocês Simon Fraser, num movimento que Garção Stockler considerou, nas suas Cartas, como a salvação do exército português pelo duque de Lafões, que a tinha dirigido para essa povoação, impedido assim o avanço generalizado dos espanhóis. A verdade é que a ordem fora dada por Forbes, no dia 18 de Maio, dois dias antes da invasão espanhola, quando soube por Stockler que a brigada se dirigia de Abrantes para se reunir ao exército do Alentejo, como prova o seu copiador de correspondência, e o ter-lhe sido dado um posto tão na retaguarda deveu-se tão somente ao medo da deserção generalizada dos soldados da brigada, se estivessem perto da linha de combate.

Em Arronches como vimos encontrava-se D. José Carcome Lobo a comandar, com ordens claras de não atacar as forças espanholas à sua frente, recuando em direcção às forças, comandadas por Bernardim Freire de Andrade, que estavam em Mosteiros para apoiar a sua retirada. A verdade é que o coronel Carcome não conseguiu cumprir as ordens e deixou-se envolver pelas tropas espanholas que o atacaram, acabando por realizar o que lhe estava ordenado, mas com baixas desnecessárias. Segundo Neves Costa, assim como Luz Soriano, que tem a mesma opinião, a má colocação das tropas foi o principal erro do coronel Carcome, sendo que devia ter aproveitado uma pausa no ataque espanhol, quando as primeiras forças pararam o combate à espera de reforços, para retirar-se. No relatório deste combate, temos a primeira descrição da utilização dos atiradores das companhias de fuzileiros dos batalhões de infantaria portugueses, e a sua utilização no combate, tanto à frente do batalhão como no apoio dos flancos. O exército português não estava tão mal preparado para a guerra como pode parecer na leitura de alguns autores de história militar, mesmo que a aplicação táctica por oficiais superiores pudesse ser deficiente.

Como escreveu Neves Costa, mesmo depois do combate de Arronches o exército espanhol continuou a progredir lentamente, permitindo ao exército português que tinha duas divisões ao redor de Portalegre, e a outra em Castelo de Vide, retirasse em direcção ao Gavião, na margem esquerda do Tejo, tendo a sua retaguarda protegida por forças da divisão da Beira. Quem dirigiu esta retirada foi o duque de Lafões, que tendo saído de Lisboa em 22 de Maio, tinha chegado a Portalegre a 28. Todo o exército do Alentejo se reuniu no Gavião em 31 de Maio de 1801, abandonando assim praticamente todo o Alto Alentejo, sem ter sido incomodado, mas mantendo duas fortalezas que impediam que o exército espanhol pudesse aproveitar convenientemente os seus sucessos. Absolutamente dependentes dos armazéns e dos transortes para se alimentarem, as duas fortalezas alentejanas seriam sempre um espinho na linha de comunicações do exército espanhol, entre Badajoz e Portalegre, e depois Abrantes se quisessem continuar a campanha.
Até 8 de Junho, data em que foi assinado o tratado de Paz de Badajoz, os únicos acontecimentos que se deram foi o aprisionamento, no dia 4, de uma força que tinha escoltado os carros enviados a Flor da Rosa para recuperar os mantimentos aí armazenados, e a rendição, no dia 6, de Campo Maior. Nem um nem outro acontecimento tiveram impacto nas negociações finais do tratado de paz

O tratado de Paz assinado por Godoy e Luciano Bonaparte, tinha como objectivo para a Espanha concluir rapidamente a intervenção francesa na Península, já que pelo tratado de Aranjuez se afirmava que com a assinatura de um tratado de paz as tropas francesas seriam retiradas rapidamente da Península. Godoy estava interessada em fechar os Portos portugueses às frotas britânicas, pensando que com este sucesso poderia negociar directamente com a Grã-Bretanha a paz, como o tinha tentado em 1798. De facto uma guerra de conquista contra Portugal, com o apoio do exército francês, poria em causa tal objectivo. Por isso, como não tinha destruído o exército português na fronteira, e não podia avançar para a linha do Tejo facilmente, devido a ter o seu flanco direito ameaçado pela divisão do marquês de Alorna, e a sua retaguarda ameaçada pela forças estacionadas em Elvas, só com o apoio da divisão francesa de Leclerc poderia continuar a campanha. Mas as forças francesas estavam ainda muito longe de puderem entrar em campanha, e para ajudarem os espanhóis teriam de se dirigir para Alcântara, a Sul da sua zona de concentração que era Salamanca. Mesmo que algumas forças de cavalaria francesa se tivessemmostrado, segundo parece, na fronteira da Beira Baixa, não eram suficientes para pôr em perigo as forças comandadas pelo marquês de Alorna. Godoy decidiu-se então pela paz.
Como o tratado de paz não foi ratificado pelo primeiro cônsul francês o estado de guerra manteve-se entre Portugal e a França.

Entretanto no Norte, no Minho e em Trás-os-Montes nada tinha acontecido, não tendo havido movimentos ofensivos espanhóis, o que levou o marquês da La Rosière a ordenar a Gomes Freire de Andrade que entrasse na Galiza, com uma pequena força, retirada da brigada comandada pelo tenente general D. Manuel José Lobo e pelo marechal de campo João António de Sá Pereira, barão de Alverca, para se informar se era possível realizar uma ofensiva pela veiga de Chaves em direcção a Monterei na Galiza. A expedição, que entrou em Espanha no dia 8, foi um fracasso não tendo conseguido realizar nada, recuando vagarosamente até que regressou a Chaves no dia seguinte. Houve outras pequenas acções mas nada influíram na conclusão da guerra.

No Algarve, as forças comandadas por Francisco da Cunha, monteiro-mor do reino, impediram, no dia 8 de Junho, uma tentativa de travessia espanhola do Guadiana em direcção a Vila Real de Santo António. Tudo se resolveu a um duelo de artilharia entre as canhoneiras espanholas e as baterias portuguesas. Francisco da Cunha ganharia o título de Conde de Castro Marim por esta acção.

Mais importante do que tudo isto, numa acção preparada desde 1800, forças milicianas do Rio Grande do Sul, no Sul do Brasil, com o apoio de índios descontentes com a governação colonial espanhola, conquistavam definitivamente a zona das sete missões, entregues formalmente a Portugal pelo tratado de Madrid de 1750, mas nunca de facto transferidas para a soberania portuguesa. Cedidas por Portugal no Tratado de Santo Ildefonso de 1777, aceitando a realidade dos factos, mas nunca esquecendo a importância de tais territórios para o desenvolvimento do sul do Brasil, como Jaime Cortesão lembrou.

Esta conquista realizada a partir de 8 de Agosto de 1801, por José Borges do Canto, antigo soldado do Regimento de Dragões do Rio Grande do Sul, com o cerco e tomada da povoação de São Miguel e posteriormente do resto das missões, foi um sucesso que nunca foi reconhecido em tratado, mas que o governo espanhol reclamou sempre, ligando no futuro a entrega das missões à entrega de Olivença.

Mas a guerra não tinha acabado, e por isso não se sabendo as intenções dos espanhóis, pensando-se que podiam avançar por Ponte de Sôr, e tornear a posição do Gavião, decidiu-se recuar o exército para Abrantes, continuando por isso a cumprir o plano pensado desde 1796. O exército começou a retirar em 7 de Junho, atravessando o Tejo no dia 8 e acampado no dia 9. O tratado foi ratificado pelo príncipe regente em 14 de Junho, e no dia 23 seguinte o duque de Lafões foi dispensado do comando, sendo este entregue ao conde de Goltz.

Goltz, oficial prussiano ao serviço da Dinamarca, conhecido pelo Tártaro, tinha sido contratado por Portugal para dirigir o exército em campanha, mas mais uma vez, exactamente como tinha acontecido ao Príncipe de Waldeck, falecido em 1798, tinha tido a oposição do marechal general, que via nestas contratações um ataque ao seu poder e à sua capacidade. Goltz que estava em Portugal desde o Outono de 1800, não tinha funções determinadas, e de facto não fazia rigorosamente nada.

Quando assumiu o comando do exército decidiu chamar para Coimbra a cavalaria de linha do exército do Norte, ordenando a Gomes Freire que organizasse uma rede de postos de vigilância na fronteira a ser mantido unicamente pelos regimentos de milícias. La Rosiére que estava a reposicionar o seu exército da linha do rio Minho para uma linha de defesa entre Braga e Guimarães, fortificando o desfiladeiro de Salamonde; preparando-se portanto para uma invasão francesa pela Beira e Trás-os-Montes, em direcção ao Porto, por Braga. A decisão de Goltz provocou uma reacção violenta do general francês emigrado, e a apreensão do governo português sobre as capacidades militares do general prussiano, já que a defesa do Norte de Portugal era absolutamente essencial, porque o objectivo assumido da França era ocupar astrês províncias do Norte com o Porto. Na carta de 2 de Outubro em que discute esta situação, o general francês apresenta mesmo a demissão. A assinatura do tratado de paz entre Portugal e a França, em Setembro, e a sua ratificação em Outubro, com o subsequente regresso aos quartéis do exército acabou por resolver este grave conflito disciplinar.

sexta-feira, 20 de março de 2009

7* - A guerra das laranjas

Com o regresso de Napoleão Bonaparte a França em Outubro de 1799, a tomada do poder em Novembro por meio do golpe de estado de "Brumário" e a vitória do exército francês em Marengo, em Junho de 1800, mas sobretudo com o armistício de Parsdorf de 15 de Julho assinado pelos comandantes dos exércitos francês e austríaco na Alemanha, a situação portuguesa deteriorou-se rapidamente. Com este armistício perfilava-se a possibilidade de um acordo com a Áustria, o que permitia pensar no desvio de recursos para a Península Ibérica.


Em 28 de Julho Napoleão Bonaparte decide enviar o general Berthier, o seu conhecido chefe de estado-maior, a Madrid com o objectivo de levar a Espanha a declarar a guerra a Portugal, interessando Carlos IV no projecto com uma solução para a situação do duque de Parma, primo direito do rei de Espanha, irmão da Rainha Maria Luísa, e sogro de uma das suas filhas, a infanta Maria Luísa, e que tinha o seu ducado ocupado pelo exército francês.



A missão de Berthier, que só chegou a Madrid em 3 de Setembro, teve como consequência a assinatura do Tratado de Santo Ildefonso de 1 de Outubro de 1800. Para dar ao duque de Parma a Toscânia e o título de rei a Espanha entregou à França a Luisiana, e 6 naus de guerra. Mas a declaração de guerra contra Portugal não foi acordada, mesmo que Napoleão Bonaparte tivesse pressionado para que a Guerra fosse declarada em meados de Outubro.



A missão de levar a Espanha a declarar a guerra a Portugal foi entregue ao irmão Luciano Bonaparte, nomeado embaixador em Novembro de 1800, mas sem ordens para oferecer apoio militar, tirando a oferta de alguns oficiais de engenharia e de artilharia. O governo espanhol continuou a recusar-se a atacar Portugal. Em finais deNovembro, com o fim do armistício na Alemanha, a guerra entre a Áustria e a França retomava-se afastando de novo o espectro de uma intervenção francesa na Península. Mas a derrota austríaca na batalha de Hohehlinden, na Baviera, em Dezembro de 1800, fazia prever a retirada da Áustria da guerra o que veio a acontecer em 9 de Fevereiro de 1801, quando se assinou o tratado de paz de Luneville entre a Áustria e a França.


Portugal, que se via pressionado pela Espanha para aceitar as velhas exigências da França de abandonar a aliança inglesa, foi recusando de facto a realização de qualquer tipo de negociação, durante todo o ano de 1800. E preparava-se para a guerra, ao regulamentar o recrutamento e a utilização dos regimentos de milícias, considerados essenciais para o reforço do exército de campanha, e que irão ter na guerra futura uma participação assinalável.


A guerra acabou por chegar por via de um ultimato conjunto francês e espanhol entregue em 6 de Fevereiro de 1801, que tendo sido recusado provocou a saída de Lisboa em 19 de Fevereiro dos dois embaixadores, sendo a declaração de guerra assinada em 27 e proclamada em 2 de Março. Começou então uma corrida febril para pôr o exército em estado de entrar em campanha criando-se as companhias de artilharia a cavalo, levantando-se um novo regimento de infantaria, o 24.º e que se denominará "de Lisboa", nomeando-se o intendente-geral dos Transportes, e mandando criar-se corpos de voluntários de ordenanças que serão organizados tanto em Trás-os-Montes, sob a direcção do coronel Pamplona, e que serão dirigidos pelo futuro conde de Amarante, assim como na Beira, sob a direcção do marquês de Alorna, e que são criadas para actuarem como corpos de infantaria ligeira.

quarta-feira, 18 de março de 2009

6* - portugal e a aliança

Portugal entre a Grã-Bretanha e a aliança franco-espanhola. A frente diplomática e a frente militar.

A partir de 1795 Portugal desejará ver reconhecida o seu estatuto de neutralidade pela França, recusando primeiro qualquer mediação espanhola, mais tarde aceitando-a mas recusando a discussão de um tratado de paz, finalmente em 1797, ao mesmo tempo que a Grã-Bretanha, aceitando, a discussão de um tratado, com pagamento de indemnizações mas com recusa de uma aliança ofensiva. A situação diplomática irá manter-se indefinida até 1801, com avanços e recuos nas posições diplomáticas mas sempre na defesa de uma estratégia bem definida.

Para Luís Pinto de Sousa, assim como para uma parte importante da elite governativa portuguesa, conhecida na história como "partido inglês", a aliança inglesa era essencial para a prosperidade económica do país, devido à necessidade do mercado britânico, da vulnerabilidade do comércio português ao ataque da frota britânica e à dependência do abastecimento alimentar de fornecimentos externos.

A aliança seria por isso o fulcro da nossa diplomacia e da nossa defesa em caso de guerra. A novidade em finais do século XVIII é que, com base na experiência da última campanha militar, se achou que Portugal, com a ajuda militar britânica, se conseguiria defender de uma invasão conjunta franco-espanhola.

Por isso, a política de preparação da máquina militar, que tinha começada por volta de 1790, após a nomeação de Luís Pinto para a secretaria da Guerra e do duque de Lafões para o posto de marechal general, continuará em 1796 e nos anos seguintes produzindo melhorias significativas na organização militar, assim:

  • organizaram-se as guarnições dos fortes e fortalezas do Algarve, do Minho e da Beira, as fronteiras em que se achava que a rede de fortalezas daria um contributo eficaz para a defesa;
  • aumentaram-se os efectivos da artilharia e da infantaria, e modernizou-se a organização dos batalhões;
  • criou-se a "Legião de Tropas Ligeiras" e organizaram-se as companhias de caçadores nos regimentos de infantaria;
  • reorganizam-se os antigos Terços de Infantaria Auxiliar, a que se deu o nome de "Regimento de Milícias", ligando estes corpos ainda mais às tropas de linha;
  • criou-se a Brigada Real de Marinha;
  • do ponto de vista do recrutamento, acabou-se com todas as isenções e obrigou-se os detentores e sucessores de bens da coroa e das ordens, de títulos e de vínculos, por junto a aristocracia, a servir no exército ou na armada, ou a inscrever-se no Colégio dos Nobres, ou nas várias Academias militares do país, ou a pagarem uma contribuição equivalente a 20% do valor dos seus bens; de facto uma tentativa relativamente conseguida de militarização da aristocracia portuguesa;
  • criou-se a Sociedade Real Marítima, Geográfica e Militar para fazer o levantamento cartográfico do país e dos territórios ultramarinos, preparando também projectos de desenvolvimento económico, e que juntou numa instituição oficial os engenheiros militares, a oficiais da armada, professores da Universidade e membros da elite científica nacional;
    finalmente, contratou-se um general austríaco, o príncipe de Waldeck, para comandar o exército de campanha em caso de guerra, e um conjunto de oficiais franceses emigrados, dirigidos pelo marquês de La Rosière, para organizarem o estado-maior do Exército.


Para dar corpo a estas modificações e mostrar a intenção de defender o país, criou-se em finais de 1796 um campo de manobras na Azambuja, onde se concentrou uma parte importante do exército, havendo um plano de defesa do país, resumo de vários planos apresentados. Juntando a tudo isto a Grã-Bretanha enviou em 1797 uma força expedicionária de reforço do exército português. As inspecções realizadas pelo príncipe de Waldeck em Março e Abril de 1798, a 10 regimentos de infantaria, mostravam um exército relativamente bem preparado, realizando manobras competentemente, mas com efectivos muito variados, devido a que uns regimentos estavam a pôr em prática os novos regulamentos, com manobras tácticas que não eram inteiramente uniformes e com armas de várias proveniências e tamanhos. Os quatro regimentos de cavalaria inspeccionados nessa altura caracterizavam-se sobretudo por ter cavalos fracos e pequenos.


Entretanto a guerra com o Reino Unido tinha-se tornado para a Espanha um desastre, tendo a frota espanhola sido derrotada na batalha do Cabo São Vicente, em 14 de Fevereiro de 1797, e a ilha da Trindade nas Antilhas sido conquistada poucos dias depois. Os desastres espanhóis levaram Godoy a entrar em conversações com o governo britânico, que tendo sido mal sucedidas, levaram à sua demissão em Março de 1798, acusado pelo Directório francês de, entre outras coisas, não querer atacar Portugal. Para a Grã-Bretanha a situação também não se mostrava muito favorável, já que a França mostrava poder invadir as ilhas britânicas, tendo-o quase conseguido em Dezembro de 1796 na Irlanda, e tendo-o de facto conseguido em Fevereiro de 1797 quando um pequeno número de tropas francesas desembarcaram por um momento em Bristol e incendiaram a cidade. Os motins na frota do Canal em Abril e Maio foram ainda mais preocupantes, pondo em causa a operacionalidade da principal força de defesa da Grã-Bretanha.

Para Portugal a situação, que tinha sido muito preocupante e de preparação para uma invasão conjunta espanhola e francesa no Outono de 1797, devido à assinatura da paz entre a França e a Áustria pelo tratado de Campo Formio de 17 de Outubro, foi-se tornando cada vez mais calma, sobretudo quando se soube que os armamentos navais realizados no sul de França desde princípios da Primavera de 1798 se tinham dirigido para o Egipto. A frota portuguesa do marquês de Nisa, em cruzeiro no Mediterrâneo desde Junho de 1798, sob as ordens de Nelson que por lá navegava desde o mês anterior, na tentativa de descobrir as intenções francesas, assegurava a cooperação luso-britânica na guerra, e na possível defesa de Portugal se a frota francesa de Toulon se tivesse dirigido para a Europa. Cooperação que se manteve neste caso até Janeiro de 1800, época em que a frota regressou a Lisboa.

Nesse mesmo mês de Janeiro de 1800 o exército português viu os seus efectivos reduzidos devido à situação diplomática muito favorável para Portugal, já que o reacender da guerra na Europa devido à vitória de Aboukir em Agosto de 1798, que tinha provocado o isolamento do exército francês no Egipto, afastava o espectro de uma invasão.

terça-feira, 17 de março de 2009

5* - Portugal e o turbilhão espanhol

A política espanhola modificou-se logo no ano seguinte com a assinatura do Tratado de Santo Ildefonso com a França, em 18 de Agosto de 1796. O acordo que só tinha efeito contra a Grã-Bretanha, como especificava o seu artigo 18, punha em prática o que tinha sido defendido em 1790 por Mirabeau: uma aliança ente as duas Nações, para além dos respectivos regimes. A ideia baseava-se no facto de se achar, dos dois lados da fronteira, mas sobretudo do lado francês, que os dois países eram aliados naturais, e os seus interesses económicos e militares complementares.


Para Portugal o artigo 4 do Tratado era muito interessante, já que a França revolucionária aceitava a existência do estatuto de potência auxiliar. Do ponto de vista formal, as posições de Luís Pinto de Sousa estavam a partir de agora acauteladas. Conseguir que a República aceitasse esse estatuto para a participação de Portugal na coligação era evidentemente o mais difícil. Havia aqui uma contradição que só podia ser resolvida pela França. Portugal tinha entrado na coligação defendendo o seu estatuto de potência auxiliar, e por isso sem pôr em causa o seu estatuto de neutralidade. A França aceitava a existência desse estatuto, mas não o aceitava no caso da participação portuguesa. Ora era exactamente para prevenir a eventualidade - melhor seria dizer a probabilidade - de a França, na guerra europeia que se avizinhava em 1793, não acatar a neutralidade portuguesa, que Portugal tinha sentido a necessidade de se aliar à Grã-Bretanha e à Espanha, e colocar o seu comércio marítimo sob a protecção das duas forças navais aliadas.


Mas para as potências contratantes, a França e a Espanha, os objectivos imediatos eram bem diferentes. À França interessava-lhe o apoio da frota espanhola e a possibilidade de utilização dos Portos atlânticos da Espanha na guerra marítima contra a Grã-Bretanha. A Espanha estava somente interessada em Itália, já que na frente marítima o apoio francês seria sempre mínimo, como de facto sempre o foi até 1808, e a guerra marítima contrária aos interesses económicos e financeiros da Espanha naquele momento. De facto não parecem ser os interesses da Espanha o que estava em causa na assinatura da aliança ofensiva e defensiva contra o Reino Unido, mas sim os interesses dinásticos, centrados pelo casal real Carlos IV e Maria Luísa da Parma, com o apoio explícito de Manuel Godoy, na península itálica.


E a realidade política italiana estava a ser transformada de uma maneira totalmente inesperada, no segundo trimestre de 1796, pelo jovem general Bonaparte. O exército francês de Itália tinha tomado a iniciativa militar a partir de Abril, invadido o Piemonte, o território continental do Reino da Sardenha, e derrotado o seu exército, tendo ocupado de seguida Parma e Modena assim como a Toscânia, tomado algumas fortalezas da República de Veneza, invadido os Estados da Igreja e obrigado o reino de Nápoles a negociar a sua retirada da coligação anti-francesa. Em 23 de Junho, data do tratado de paz com o Papa, a Itália estava pacificada e ocupada pelo exército francês, sendo que a Espanha não tinha sido solicitada a intervir como mediadora em nenhuma destes acordos. Nem tão-pouco foi notificada quando foi negociado o tratado de paz de Outubro de 1796 entre Nápoles e a França, que teve como consequência a retirada da frota britânica do Mediterrâneo.

domingo, 15 de março de 2009

4* - participação portuguesa na Catalunha

Para a análise da campanha na Catalunha tem-se seguido sempre de muito de perto a análise de Latino Coelho, não havendo nenhuma discussão sobre as conclusões que este autor defendeu. Para Latino Coelho, como é sabido, seguindo Luz Soriano, não havia razão para nos termos embrenhado nos problemas europeus, seguindo os interesses britânicos e espanhóis, muito menos havendo razão de atacar a França que não nos tinha declarado guerra.

No seguimento de Borges de Macedo, Valentim Alexandre veio dar uma nova visão sobre o problema diplomático, pondo em causa as opiniões dos dois autores citados, como mostrei. Mas do ponto de vista militar, a situação ainda não foi revista, e é preciso reavaliá-la rapidamente, até porque permitirá aprofundar o estudo inovador do professor Valentim Alexandre.

Assim, é patente que a infantaria, a artilharia e mesmo os vários generais portugueses deram boa conta de si, do ponto de vista profissional. É também patente, que a experiência ganha nos dois anos de campanha não se perdeu, havendo introdução rápida de novidades no regulamento de manobra, com a criação logo em 1795 dos atiradores. Mesmo que alguns autores, como Chaby, Ferreira Gil, Carlos Selvagem, Fernando Taveira, possam afirmar que nada se apreendeu na campanha a verdade é que a legislação de carácter militar promulgada nos anos seguintes demonstra a tentativa de aplicar na prática os conhecimentos ganhos nos Pirinéus.

Mas o mais interessante na história da campanha, é o grave problema disciplinar que foi despoletado no princípio de 1795, pela publicação do relatório da batalha da "Montanha Negra" na Gazeta de Lisboa em Dezembro de 1794. Latino Coelho considera tratar-se de uma grave falta de disciplina, não resolvida convenientemente pelo comandante da divisão, o general Forbes, notando que o caso tinha contornos de repúdio dos oficiais estrangeiros a servir no exército português. Interessantemente, mas sem tirar nenhum tipo de conclusão sobre isso, nota que "os que se diziam agravados eram principalmente [oficiais] de valia na corte, pelas suas relações de parentesco". É de notar a hábil maneira como Latino Coelho, republicano radical, evita constatar que eram todos oficiais oriundos da aristocracia da corte.

O carácter nacionalista do confronto será o ponto central da obra de Raul Brandão, Vida e Morte de Gomes Freire, publicado em 1914, livro que tornará o nacionalismo a base da compreensão deste estranho conflito disciplinar. Há de facto um anacronismo nesta conclusão que não tem sido notado, assim como se não tem notado a antipatia mostrada por este grupo aristocrático para com os, na época, majores Teixeira Rebelo e António da Rosa, os comandantes da artilharia que também foram alvo dos ataques de Gomes Freire.

O interessante é que estas posições de Freire de Andrade se repetirão em 1801, no relatório sobre a incursão na Galiza, e mais tarde em 1803. Voltaremos a este assunto mais abaixo quando falarmos da Guerra das Laranjas, e mais tarde, noutro estudo, quando falarmos das tentativas de reforma do exército de 1803 e dos motins de Campo de Ourique.

sexta-feira, 13 de março de 2009

- Reflexões: Professor Medina Carreira

Nota: O Professor Medina Carreira, um dos mais capacitados economistas portugueses, sempre que fala, deixa o País a reflectir, estupefacto. Aqui deixamos a síntese de uma das últimas entrevistas que concedeu e a não perder.

"Vocês, comunicação social o que dão é esta conversa de «inflação menos 1 ponto», o «crescimento 0,1 em vez de 0,6»....Se as pessoas soubessem o que é 0,1 de crescimento, que é um café por português de 3 em 3 dias... Portanto andamos a discutir um café de 3 em 3 dias...mas é sem açucar..."

"Eu não sou candidato a nada, e por conseguinte não quero ser popular. Eu não quero é enganar os portugueses. Nem digo mal por prazer, nem quero ser «popularuxo» porque não dependo do aparelho político!"

"Ainda há dias eu estava num supermercado, numa bicha para pagar, e estava uma rapariga de umbigo de fora com umas garrafas, e em vez de multiplicar «6x3=18», contava com os dedos: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9... Isto é ensino...é falta de ensino, é uma treta! É o futuro que está em causa!"

"Os números são fatais. Dos números ninguém se livra, mesmo que não goste. Uma economia que em cada 3 anos dos últimos 27, cresceu 1% em 2...esta economia não resiste num país europeu."

"Quem anda a viver da política para tratar da sua vida, não se pode esperar coisa nenhuma. A causa pública exige entrega e desinteresse."

"Se nós já estamos ultra-endividados, faz algum sentido ir gastar este dinheiro todo em coisas que não são estritamente indispensáveis? P'ra gente ir para o Porto ou para Badajoz mais depressa 20 minutos? Acha que sim? A aviação está a sofrer uma reconversão, vamos agora fazer um aeroporto, se calhar não era melhor aproveitar a Portela? Quer dizer, isto está tudo louco!"

"Eu por mim estou convencido que não se faz nada para pôr a Justiça a funcionar porque a classe política tem medo de ser apanhada na rede da Justiça. É uma desconfiança que eu tenho. E então, quanto mais complicado aquilo fôr..."

"Nós tivemos nos últimos 10-12 anos 4 Primeiros-Ministros: -Um desapareceu; -O outro arranjou um melhor emprego em Bruxelas, foi-se embora; -O outro foi mandado embora pelo Presidente da República; -E este coitado, anda a ver se consegue chegar ao fim e fazer alguma coisa..."

"O João Cravinho tentou resolver o problema da corrupção em Portugal. Tentou. Foi "exilado" para Londres. O Carrilho também falava um bocado, foi para Paris. O Alegre depois não sei para onde ele irá... Em Portugal quem fala contra a corrupção ou é mandado para um "exílio dourado", ou então é entupido e cercado."

"Mas você acredita nesse «considerado bem»? Então, o meu amigo encomenda aí uma ponte que é orçamentada para 100 e depois custa 400? Não há uma obra que não custe 3 ou 4 vezes mais? Não acha que isto é um saque dos dinheiros públicos? E não vejo intervenção da policía... Há-de acreditar que há muita gente que fica com a grande parte da diferença!"

"De acordo com as circunstâncias previstas, nós por volta de 2020 somos o país mais pobre da União Europeia. É claro que vamos ter o nome de Lisboa na estratégia, e vamos ter, eventualmente, o nome de Lisboa no tratado. É, mas não passa disso. É só para entreter a gente..."

"Isto é um circo. É uma palhaçada. Nas eleiçoes, uns não sabem o que estão a prometer, e outros são declaradamente uns mentirosos: -Prometem aquilo que sabem que não podem."

"A educação em Portugal é um crime de «lesa-juventude»: Com a fantasia do ensino dito «inclusivo», têm lá uma data de gente que não quer estudar, que não faz nada, não fará nada, nem deixa ninguém estudar. Para que é que serve estar lá gente que não quer estudar? Claro que o pessoal que não quer estudar está lá a atrapalhar a vida aqueles que querem estudar. Mas é inclusiva.... O que é inclusiva? É para formar tontos? Analfabetos?" "Os exames são uma vergonha. Você acredita que num ano a média de Matemática é 10, e no outro ano é 14? Acha que o pessoal melhorou desta maneira? Por conseguinte a única coisa que posso dizer é que é mentira! Está-se a levar a juventude para um beco sem saída. Esta juventude vai ser completamente desgraçada! "

"A minha opinião desde há muito tempo é TGV- Não! Para um país com este tamanho é uma tontice. O aeroporto depende. Eu acho que é de pensar duas vezes esse problema. Ainda mais agora com o problema do petróleo. "Bragança não pode ficar fora da rede de auto-estradas? Não? Quer dizer, Bragança fica dentro da rede de auto-estradas e nós ficamos encalacrados no estrangeiro? Eu nem comento essa afirmação que é para não ir mais longe... Bragança com uma boa estrada fica muito bem ligada. Quem tem interesse que se façam estas obras é o Governo Português, são os partidos do poder, são os bancos, são os construtores, são os vendedores de maquinaria... Esses é que têm interesse, não é o Português!"

"Nós em Portugal sabemos é resolver o problema dos outros: A guerra do Iraque, do Afeganistão, se o Presidente havia de ter sido o Bush, mas não sabemos resolver os nossos. As nossas grandes personalidades em Portugal falam de tudo no estrangeiro: criticam, promovem, conferenciam, discutem, mas se lhes perguntar o que é que se devia fazer em Portugal nenhum sabe. Somos um país de papagaios... Receber os prisioneiros de Guantanamo? «Isso fica bem e a alimentação não deve ser cara...» Saibamos olhar para os nossos problemas e resolvê-los e deixemos lá os outros... Isso é um sintoma de inferioridade que a gente tem, estar sempre a olhar para os outros. Olhemos para nós!"

"A crise internacional é realmente um problema grave, para 1-2 anos. Quando passar lá fora, a crise passará cá. Mas quando essa crise passar cá, nós ficamos outra vez com os nossos problemas, com a nossa crise. Portanto é importante não embebedar o pessoal com a ideia de que isto é a maldita crise. Não é!"

"Nós estamos com um endividamento diário nos últimos 3 anos correspondente a 48 milhões de euros por dia: Por hora são 2 milhões! Portanto, quando acabarmos este programa Portugal deve mais 2 milhões! Quem é que vai pagar?"

"Isso era o que deveríamos ter em grande quantidade. Era vender sapatos. Mas nós não estamos a falar de vender sapatos. Nós estamos a falar de pedir dinheiro emprestado lá fora, pô-lo a circular, o pessoal come e bebe, e depois ele sai logo a seguir..."

"Ouça, eu não ligo importância a esses documentos aprovados na Assembleia...Não me fale da Assembleia, isso é uma provocação... Poupe-me a esse espectáculo...."

"Isto da avaliação dos professores não é começar por lado nenhum. Eu já disse à Ministra uma vez «A senhora tem uma agenda errada"» Porque sem pôr disciplina na escola, não lhe interessa os professores. Quer grandes professores? Eu também, agora, para quê? Chegam lá os meninos fazem o que lhes dá na cabeça, insultam, batem, partem a carteira e não acontece coisa nenhuma. Vale a pena ter lá o grande professor? Ele não está para aturar aquilo... Portanto tem que haver uma agenda para a Educação. Eu sou contra a autonomia das escolas. Isso é descentralizar a «bandalheira»."

"Há dias circulava na Internet uma noticía sobre um atleta olímpico que andou numa "nova oportunidade" uns meses, fez o 12ºano e agora vai seguir Medicina... Quer dizer, o homem andava aí distraído, disseram «meta-se nas novas oportunidades» e agora entra em Medicina... Bem, quando ele acabar o curso já eu não devo cá andar felizmente, mas quem vai apanhar esse atleta olímpico com este tipo de preparação... Quer dizer, isto é tudo uma trafulhice..."

"É preciso que alguém diga aos portugueses o caminho que este país está a levar. Um país que empobrece, que se torna cada vez mais desigual, em que as desigualdades não têm fundamento, a maior parte delas são desigualdades ilegítimas para não dizer mais, numa sociedade onde uns empobrecem sem justificação e outros se tornam multi-milionários sem justificação, é um caldo de cultura que pode acabar muito mal. Eu receio mesmo que acabe."

"Até há cerca de um ano eu pensava que íamos ficar irremediavelmente mais pobres, mas aqui quentinhos, pacifícos, amiguinhos, a passar a mão uns pelos outros... Começo a pensar que vamos empobrecer, mas com barulho... Hoje, acrescento-lhe só o «muito». Digo-lhe que a gente vai empobrecer, provavelmente com muito barulho... Eu achava que não havia «barulho», depois achava que ia haver «barulho», e agora acho que vai haver «muito barulho». Os portugueses que interpretem o que quiserem..."

"Quando sobe a linha de desenvolvimento da União Europeia sobe a linha de Portugal. Por conseguinte quando os Governos dizem que estão a fazer coisas e que a economia está a responder, é mentira! Portanto, nós na conjuntura de médio prazo e curto prazo não fazemos coisa nenhuma. Os governos não fazem nada que seja útil ou que seja excessivamente útil. É só conversa e portanto, não acreditem... No longo prazo, também não fizemos nada para o resolver e esta é que é a angústia da economia portuguesa."

"Tudo se resume a sacar dinheiro de qualquer sitío. Esta inter-penetração do político com o económico, das empresas que vão buscar os políticos, dos políticos que vão buscar as empresas... Isto não é um problema de regras, é um problema das pessoas em si... Porque é que se vai buscar políticos para as empresas? É o sistema, é a (des)educação que a gente tem para a vida política... Um político é um político. E um empresário é um empresário. E não deve haver confusões entre uma coisa e outra. Cada um no seu sítio. Esta coisa de ser político, depois ministro, depois sai, vai para ali, tira-se de acolá, volta-se para ministro...é tudo uma sujeira que não dá saúde nenhuma à sociedade."

"Este país não vai de habilidades nem de espectáculos. Este país vai de seriedade. Enquanto tivermos ministros a verificar preços e a distribuir computadores, eles não são ministros! Eles não são pagos nem escolhidos para isso! Eles têm outras competências e têm que perceber quais os grandes problemas do país!"

"Se aparece aqui uma pessoa para falar verdade, os vossos comentadores dizem «este tipo é chato, é pessimista».... Se vem aqui outro trafulha a dizer umas aldrabices fica tudo satisfeito... Vocês têm que arranjar um programa onde as pessoas venham à vontade, sem estarem a ser pressionadas, sossegadamente dizer aquilo que pensam. E os portugueses se quiserem ouvir, ouvem. E eles vão ouvir, porque no dia em que começarem a ouvir gente séria e que não diz aldrabices, param para ouvir. O Português está farto de ser enganado! Todos os dias tem a sensação que é enganado!"

quarta-feira, 11 de março de 2009

3* - O Exército Auxiliar à Coroa Espanhola

O corpo organizado para apoiar o exército espanhol na Catalunha, de acordo com a convenção assinada com a Espanha em 15 de Julho de 1793, era uma divisão reforçada composta por 6 regimentos de infantaria, um quarto de toda a infantaria portuguesa, e alguma artilharia. Representou de facto um grande esforço sobretudo devido à rapidez com que foi necessário organizá-la. Foi necessário colocar em estado de realizarem uma campanha os vários regimentos envolvidos, tendo para isso sido necessário reformar os soldados e oficiais incapazes de participarem na expedição, devido sobretudo à idade, substituir os oficiais e fazer o recrutamento para completar os quadros regimentais, preparar os corpos tacticamente para manobrar conjuntamente, o que já estava a ser realizado desde a criação do campo da Charneca de Sintra, em Junho. O problema principal não era juntar os corpos; o problema mais complexo era a parte material. Montar a artilharia, requisitar animais de tiro, preparar as munições, organizar o material de engenharia, etc. Em 18 de Setembro, 3 meses depois da assinatura da convenção, o Exército Auxiliar à Coroa de Espanha partia para a Catalunha, onde chegou a 9 de Novembro.

Quando a divisão portuguesa desembarcou no porto de Rosas o exército espanhol ocupava uma pequena faixa de território do Rossilhão francês na margem esquerda do rio Tech, com o centro em Le Boulou na estrada para Perpignan, a esquerda em Le Ceret e a direita na Costa. O reforço português era significativo para um exército que estava reduzido a 20.000 homens, e devido ao aumento de efectivos o exército do general Ricardos pôde retomar a ofensiva empurrando os franceses para Perpignan, cidade que acabou por não ser tomada. A incapacidade de conquistar esta cidade francesa foi um revés importante para os espanhóis, e teve como consequência a perda definitiva da iniciativa militar.

De facto, o ano de 1793 não terminava favoravelmente para a coligação nem a sul, já que Toulon, o grande porto militar francês do Mediterrâneo, que tinha sido ocupado em Agosto por uma força militar anglo-espanhola, tinha sido reconquistada em 19 de Dezembro, mostrando a dificuldade de relacionamento entre britânicos e castelhanos; nem no norte da Europa, já que os exércitos revolucionários tinham conseguido impedir a invasão do território francês. O ano de 1794 foi pior, e desde o começo da campanha iniciada pelo exército francês em Abril, as derrotas nos Pirinéus sucederam-se, terminando com a vitória francesa de 17 de Novembro na batalha da "Montanha Negra", onde foi feito prisioneiro em bloco o 1.º regimento do Porto e, ainda mais grave, com a rendição da fortaleza de Figueiras, em 27 de Novembro, o que possibilitava a rápida conquista da Catalunha pelo exército francês. No País Basco e em Navarra, nos Pirinéus Ocidentais, a situação não era melhor. No norte da Europa, 1794 viu a conquista da Bélgica e da Holanda pelos exércitos franceses.

No princípio de 1795 a situação militar não melhorou. A Prússia retirou-se da coligação assinando a paz em Basileia em 5 Abril, a Holanda conquistada assinou um tratado de aliança em 16 de Maio e as forças inglesas expulsas da Holanda tinham reembarcado em Hamburgo a 14 de Abril. Na Catalunha a fortaleza costeira de Rosas foi capturada pela forças francesas, mas depois desta conquista o exército da república não conseguiu avançar muito mais para Sul mantendo-se os dois exércitos na linha do rio Fluvia, não havendo mais do que pequenos reencontros que foram sempre indecisos. De facto, sob o comando do general Urrutia, o quarto comandante espanhol em dois anos de guerra, o exército espanhol da Catalunha tinha sustido a invasão francesa e mesmo contra-atacado, retomando a povoação de Puigcerdá, na fronteira, em 26 de Julho. Mas quatro dias antes, no dia 22, a Espanha e a França tinham assinado um tratado de paz em Basileia.

A situação de Portugal complicava-se, assim como a da coligação. Para Portugal, tratava-se agora de perceber qual a posição que a Espanha iria seguir. Iria ser o mais difícil. Mas o que era previsível era, no mínimo, o regresso da hostilidade entre a Espanha e a Grã-Bretanha, até porque a entrega da parte espanhola da ilha de São Domingos, nas Antilhas, pelo tratado de Basileia, não era de molde a agradar à Grã-Bretanha. O que ninguém podia prever é que para a Carlos IV o essencial da sua política iria ser tentar assumir a direcção da Dinastia Borbon, sem direcção desde a morte de Luís XVI, controlando-a em Itália, onde estava instalada por meio das casas de Parma e de Napóles, e tentando dirigi-la em Portugal, por intermédio da sua filha primogénita, a Princesa Carlota Joaquina. De facto, essa intenção de Carlos IV tinha sido apoiada pela França, quando a República aceitou que quaisquer conversações de paz com os estados italianos, assim como com Portugal, se realizassem por mediação espanhola.

sábado, 7 de março de 2009

2* - A Guerra da Primeira Coligação

A tentativa de fuga de Luís XVI, o seu julgamento, condenação à morte e execução pública na guilhotina, foram provocando reacções diplomáticas em cadeia das potências europeias a quem a república francesa ia declarando guerra.

Depois da declaração de guerra à Áustria, ainda realizada em nome de Luís XVI, seguiram-se as declarações contra a Grã-Bretanha e a Holanda (1 de Fevereiro de 1793), e contra a Espanha (7 de Março). O que provocou a assinatura de um conjunto de tratados que tinham como centro o Reino Unido, que deram corpo à primeira «coalizão».

Assim a Inglaterra assinou, de 25 de Março a 28 de Outubro, da Rússia à Toscânia, passando pela Sardenha, Espanha (25 de Maio), Áustria, Prússia e alguns príncipes alemães, vários acordos de assistência financeira para apoio aos armamentos dos vários países.

Portugal, que assinou o tratado de aliança com a Inglaterra, em 26 de Setembro, um dos últimos países a fazê-lo, não queria ficar de fora deste acordo global. Sobretudo quando a Espanha, tendo abandonado a sua política de neutralidade perante a França revolucionária, defendida por Aranda, chefe do partido aristocrático ou "aragonês", se converteu à ideia de uma aliança com a Grã-Bretanha, intenção de que o governo português teve conhecimento em 29 de Janeiro, por meio do novo primeiro-ministro espanhol Manuel Godoy. De facto a Espanha tinha intenção de aderir à coligação que se formava a instâncias do Reino Unido, e Godoy mostrava a necessidade de Portugal também "entrar em acção" e de fornecer à Espanha, "não estando o exército espanhol naquela força e bom pé que ele desejava ... os auxílios possíveis, e que se deviam esperar da aliança e amizade" entre os dois governos.

Portugal, a instâncias de Luís Pinto de Sousa, secretário de estado dos negócios estrangeiros desde 1788, parecia afastar-se do princípio de neutralidade, contra a opinião de um grupo dirigido pelo duque de Lafões, que defendia a manutenção do "status quo", exactamente o que em Espanha o "partido aragonês" defendia e em Inglaterra o partido «whig» - a grande aristocracia britânica - propunha. Mas a necessidade de manter a equidistância e a ligação aos nossos dois principais parceiros diplomáticos assim o exigia, segundo o ministro. Sobretudo, porque, como salientou Valentim Alexandre se "a entrada de Portugal na guerra não deixava de trazer riscos e de acarretar dificuldades financeiras ... no entanto, a situação internacional do país parecia bastante sólida".

A verdade é que, formalmente, a entrada de Portugal na coligação não se fazia directamente mas de acordo com os tratados bilaterais anteriores, e que implicavam o estatuto de potência auxiliar.

Quer isto dizer que Portugal não se considerava em guerra com a França, mantendo formalmente a sua situação de neutralidade. Do ponto de vista do direito internacional e das regras da diplomacia da época, era uma atitude perfeitamente legítima, mesmo que não tivesse em conta as mudanças provocadas na diplomacia pela política revolucionária francesa. Mas a verdade é que Portugal não podia, nem queria, deixar de se manter no quadro das normas diplomáticas da época, que lhe interessava manter, e o facto é que a sua posição foi sendo reconhecida pelas diferentes potências europeias.

quarta-feira, 4 de março de 2009

1* - Portugal e as Guerras (A neutralidade)

A Granada, de ouro para os oficiais, colocada na parte superior da manga esquerda das fardas, era uma distinção acordada a todos os membros do exército que tinham participado na Campanha do Rossilhão

  • A Neutralidade:
Quando em Abril de 1792 as guerras da revolução francesa tiveram início, com a declaração de guerra da França ao "Rei da Boémia e da Hungria", Portugal tinha no concerto das nações europeias, o estatuto de neutralidade que desde os remotos tempos de D. João III tentava conseguir.

De facto, desde o tratado do Prado de 11 de Março de 1778 entre D. Maria I e Carlos III de Espanha "de Amizade e Garantia" entre as monarquias ibéricas, mas que em Espanha tinha passado a ter, no acto de ratificação, o título de "Neutralidade, Garantia e Comércio", com ênfase dado à palavra Neutralidade, que é como Carlos III o chamava; assim como desde o "Tratado de Amizade, Navegação e Comércio" entre Portugal e a Rússia de Catarina II, tratado este que vinha no seguimento da "Convenção marítima de Neutralidade Armada", assinada com a Rússia em 13 de Julho de 1782 durante a Guerra da Independência Americana, que Portugal tinha ganho esse estatuto.

Estatuto que tinha sido reconhecido formalmente ao ter sido aceite a mediação de Portugal no conflito provocado pelo estabelecimento de um entreposto comercial britânico na Baía de Nutka (Nootka Sound), na costa americana do Pacífico. A instalação deste estabelecimento comercial, a actual cidade de Vancouver, em território que a Espanha considerava parte das suas possessões na América do Norte, provocou a reacção do vice-rei do México que mandou ocupar o posto e arrear a bandeira britânica, o que aconteceu em Maio de 1789, tendo sido apresado um navio mercante e aprisionado a sua tripulação.

O entreposto de comércio das peles fazia parte dos planos britânicos de reconquista do muito rentável comércio de peles do interior do continente americano, absolutamente necessário ao comércio com a China, e as notícias da acção espanhola, que chegaram ao Reino Unido em Janeiro de 1790, provocaram medidas imediatas de preparação para a guerra, com a aprovação de fundos para a guerra e o armamento de uma frota. A Espanha requereu o apoio da França, de acordo com o "Pacto de Família", mas a recusa de Luís XVI de apoio a Espanha, após a Assembleia Constituinte ter repudiado o Pacto de Família em 26 de Agosto desse ano, obrigou este país a negociar com a Grã-Bretanha. A Espanha foi obrigada a entregar o navio que tinha apresado, a libertar a tripulação, a pagar compensações e, o mais importante, a aceitar a posse da costa a norte da Califórnia pelos britânicos.

O desfecho do caso era favorável à política externa portuguesa, ao provocar a separação entre a França e a Espanha, e o isolamento da potência vizinha de Portugal na Europa. Para além de que Portugal aparecia como tendo apaziguado os ânimos bélicos das duas potências, o que serviu para apresentar a proposta de criação de uma Tríplice Aliança, o corolário lógico da política diplomática da "Viradeira". Mesmo que a proposta não fosse aceite, como nunca foi, mantinha os canais diplomáticos abertos e as soluções bélicas afastadas do relacionamento entre os dois principais aliados de Portugal, e o país diplomaticamente equidistante das duas potências. A política diplomática seguida pelos governos de D. Maria I desde 1778, de aproximação à Espanha, mantendo a Aliança inglesa, ficava assim consolidada.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

- Agostinho da Silva



Agostinho da Silva

"Que todo o mundo seja «Portugal», isto é, que no mundo toda a gente se comporte como têm comportado os portugueses na história" "Primeiro inventaram o país que queriam, porque não havia. Quem olhava para o mapa da península nunca via desenhado nele Portugal. Havia províncias romanas, havia mais domínios mouros, havia umas coisas esquisitas que sobravam lá de muito atrás como o país dos bascos, etc...

Mas, foram os portugueses que viram, nitidamente, o país desenhado no mapa da península, e depois lhe traçaram os limites. E que aconteceu? Aconteceu que realizaram o único país estável do mundo. Todos os outros têm mudado, todo o jogo de fronteiras tem sido no mundo, excepto para Portugal.

E foram para o mar. E que Mar resultou das viagens dos portugueses? O Mar que há. O Mar que toda a gente teve que aceitar. Não havia outro possível" "Se essa é a missão que Portugal tem que realizar no mundo, porquê agitar-se muito? Deixa andar, é como quando nós confiamos uma tarefa a uma máquina, confiança absoluta que ela vai preparar o nosso almoço quando se carregou num botão a um tanto minuto, e depois o que há a fazer? Agitar-se? Nada disso, esperar que a máquina acabe a sua tarefa: pode ser que a máquina do mundo tenha uma determinada tarefa para Portugal.

Então não me agita nada que os portugueses sejam passivos. Nunca foram na história. É uma ideia curiosa essa que aparece muito hoje em dia de que os portugueses são passivos: eles estão à espera de que o barco passe para pularem dentro" "Portugal fez coisas que nenhum outro país fez. E portanto, se foi capaz de desempenhar missões, de realizar aquilo que outros países não realizaram, então talvez, quem sabe, possa ele no futuro realizar as tais missões que hoje parecem utópicas, mas que porventura, nenhuma outra nação do Mundo seria capaz de realizar como ele" "São Bernardo disse aos templários: «para que vocês deixem de combater os muçulmanos, o melhor é comerciar com eles», (...) a coisa é que saiu mal, (...)o que acabaria por tornar os templários em banqueiros (...), o que fez Dom Dinis também, que fez uma coisa muito interessante que foi a primeira nacionalização que houve em Portugal, nacionalizando o tesouro dos templários, fazendo ao mesmo tempo, a primeira privatização, já que os privou a eles de terem o tesouro, toda a nacionalização pode ser uma privatização ao mesmo tempo, não é?"

"Não tenho saudades, as pessoas de quem eu gosto estão sempre comigo, como vou ter saudades deles? Mesmo que seja muita a distância. De modo que essa coisa de Saudade para mim não existe, sempre tenho andado no mundo, Brasil por exemplo, não tive saudades de Portugal, nem agora tenho do Brasil. A Saudade supõe ausência, se eu nunca estou ausente de mim, como vou ter Saudades?"

"Os portugueses são facilmente vuneráveis aquilo que sucede no mundo, facilmente pessimistas, e às vezes eles estão tocando o pessimismo como quem toca guitarra, para se entreterem. Vão dizendo: «se amanhã estivermos vivos»; «se lá chegarmos»; «oxalá possamos chegar»; etc.... Como se tivessem dando à vida, que é monótona para eles, um tempero excitante de poderem não estar vivos daí uns minutos. Temos que amar cada vez mais a vida e a ter cada vez mais ampla, e fazermos tudo na nossa pequena área ou na nossa área maior para que ela assim seja, para ver se as pessoas se despem desse pessimismo. Se andando vivos na vida, ao passo que a maior parte da gente faz de morto para que a vida não o agrida a ele, andando vivos na vida chegamos a ter um entusiasmo comunicativo a nós próprios sempre, e contagioso para todos aqueles que connosco lidarem"

"O Império Romano ter nascido como nasceu, e se ter estendido até onde se estendeu, e de repente encontrar um muro tremendo, o muro líquido do Atlântico, que impedia a sua expansão ao resto do globo. Esse muro do Atlântico que travou o Império Romano, quem o foi derrubar? Foi um pequeno povo, quase esquecido, no Ocidente da Península que conseguiu que o muro se derrubasse e que o Império Romano, já com outras características, se estendesse efectivamente a todo o mundo."

"Temos que dar qualquer jeito para que Portugal deixe de coxear e realmente se reinstale. Eu acho que o problema que está hoje diante de Portugal é de se reinstalar, de se restaurar (...) de voltar aquilo que os portugueses acharam que era o seu próprio Portugal"

"Vamos dar ao mundo aquilo que temos de melhor, que é de sonharmos continuamente, e de ao mesmo tempo, termos um conceito objectivo da vida(...)ver o mundo tal qual ele é, e ao mesmo tempo descobrirmos nisso o que ele também é, mas muitas vezes oculto aos outros" "Não se trata disso, de dizer que Portugal tem como destino o Quinto Império. Portugal inventou, imaginou isso do "Quinto Império" e nós temos que o examinar e ver o que pensou Vieira e ver se isso não está dentro de nós e da nossa capacidade."

"Esse Quinto Império tem sido muito mal interpretado em toda a parte. Temos que examinar se esse Quinto Império e quando digo nossa não digo a daquele Portugal que vai entre o Minho e a Ilha do Corvo. É daquela gente que foi tocada por esta pintura, com que se apresentam formas várias, por toda a parte."

"A questão portuguesa, não é de se falar uma palavra de português. É de ser, ou não, à maneira portuguesa de ser. É ser variadissimas coisas ao mesmo tempo e por vezes coisas que parecem contraditórias. E possibilidade de encarar um tema e de o encarar de várias maneiras, conforma a época em que viveram, a linguagem que utilizavam, a maneira que se sentiam na vida. Quando se fala agora em Quinto Império, toda a gente se esquece que a primeira ideia de Quinto Império apareceu com o Camões, nos Lusíadas, na Ilha dos Amores. O que é que o Camões põe como o fim da actividade humana? Na primeira parte de Os Lusíadas, ele, o que conta é como os portugueses realizaram esse projecto extraordinário que foi desde o começo, de uma agitação portuguesa lá pelo lado de Gaia até ao Vasco da Gama. Terminada uma empresa, em que cada um teve que cumprir um dever, de ser isto ou aquilo como trabalhador, terminada essa empresa aparece aquilo de cada Homem ser aquilo que realmente é. Ser ao máximo, plenamente, aquilo para que nasceu e que marca a sua indivualidade. Assim que aqueles marinheiros que estiveram em Calicute tocam aquela Ilha, eles são aquilo que eram."

"O Futebol, o Jogo dos Bancos, dos políticos que não se entendem entre si, em lugar de se ajudarem uns aos outros nessa tarefa difícil que é administrar um País, em que se tem que ao mesmo tempo de olhar o presente e ter a maior confiança no que se pode fazer ao Futuro." "Se isto foi uma discussão, foi uma coisa boa, no sentido etimológico da palavra, que é sacudir. Já que abanar as cabeças é bom, para saber se existe dentro delas alguma coisa."

"Eu suponho que sou uma pessoa de convicção. Se a convicção é a mesma coisa que a fé é algo discutível. A convicção é alguma coisa que a pessoa traz ou sente que traz dentro, como se fizesse bem parte dele, e que não há maneira de evitar. O convicto não evita. Quanto à fé, é outra coisa. É em geral aquilo em que se acredita, o que se convence a pessoa de que existe, sem ter nenhuma matemática pelo meio, sem haver nenhuma equação que o prove. A pessoa então tem fé." "A igreja mais bem pensante seria aquela que as pensasse todas juntas. E que desse, como um resumo geral, sem coibir em nada, sem prender em nada, as integrasse todas num todo. Até agora ainda não apareceu."

"A obrigação do homem é voar alto, mas sem nunca perder a linha de terra. Temos que ter as duas coisas ao mesmo tempo. Ter o chão em baixo, tão objectivo e tão nítido como se fosse um mapa em relevo. E ao mesmo tempo voarmos alto. Uma só das coisas não é humana. Seria de um bicho só adaptado ao chão ou d'outro lado, adaptado ao céu."

"Conheço uma porção de gente que andava com uma ideia, uma ilusão a respeito do que lhe estava sucedendo na vida, de súbito as coisas mudam, e a pessoa fica completamente desorientada, sem parar sequer um momento para ver se ela não é uma «pedra» que está recusando o cinzelo do escultor que a quer tornar menos pedra e mais estátua. Então é preciso que a pessoa numa altura dessas: pense bem; esteja calmo; deixe suceder mais um tempo; veja o que lhe vai aparecendo e depois reflicta realmente se não avançou com aquilo que lhe parecia negativo.

Porque afinal, é com o esforço de subir um degrau que a pessoa chega ao patamar. Talvez a vida nos ponha degraus bastante fortes, para nós darmos boas passadas, exercitarmos bem os nossos músculos, e chegarmos aos patamares mais altos que há. "É extremamente simples viver. Desde que a pessoa, para viver como vive, tenha o suficiente para comprar as coisas. Porque nós estamos nessa contradição. Nascer de graça e passar o resto da vida a ganhá-la. O que é inteiramente absurdo. Desde que nascemos de graça, a vida devia continuar a ser de graça."

"Diante daquilo que se ama, não se deve ser crítico, deve-se deixar que o amor nos possua. Mas diante daquilo que se admira deve-se estar sempre com a objecção pronta, para se poder demolir aquilo que admiramos que afinal pode apenas nos estar iludindo." "Nenhuma pessoa tem qualidades ou defeitos. Uma pessoa tem características. Quando nos agradam, chamamos-lhes qualidades, quando não, chamamos-lhes defeitos".

"Eu costumo sempre citar, a propósito da construção do Brasil, como o português, durante 250 anos foi o mais manhoso de sempre, mentiu sempre com mapas falsos para toda a parte para se conseguir o Brasil que se tem hoje. Foi um defeito ou uma qualidade? Ter aquele pais e levá-lo a um ponto onde se poderia desenvolver, foi um defeito ou uma qualidade?

Quando o português mandava embaixadores pela Europa a ver se era possível comprar relógios que pudessem medir a Longitude era uma qualidade ou um defeito? Era qualidade, mas a um tempo era um defeito, porque esses europeus ainda não sabiam medir bem a longitude e podiam ser enganados".

"É preciso que tenhamos certezas na vida, mas também que um grande número de dúvidas nos acompanhe."

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

- Afonso de Albuquerque

Afonso de Albuquerque


Militar, conquistador e político português nascido na Quinta do Paraíso, perto de Alhandra, considerado a figura mais emblemática da expansão portuguesa no Oriente e que como segundo vice-rei da Índia foi maior responsável pela expansão do poder das feitorias lusas nesse país.

Descendente da nobreza lusitana, foi criado na corte de D. Afonso V, serviu em praças-fortes portuguesas de Marrocos e integrou a guarda pessoal de D. João II. Na sua primeira missão na Índia (1503-1505), confiada por D. Manuel I, fundou a fortaleza de Cochim, travou combate com os turcos e com tropas muçulmanas do reino de Calecut, e estudou profundamente a região. Com prestígio em alta, foi nomeado (1506) por D. Manuel I para substituir o governador D. Francisco de Almeida.

Ao chegar a Índia (1508), Almeida negou-se a reconhecer a carta secreta do rei na qual o nomeava governador e, além de não lhe transferir seus poderes, o aprisionou na fortaleza de Cananor. Com a chegada da esquadra do marechal Fernando Coutinho (1509), o insatisfeito governante não pode resistir e entregou o cargo a seu sucessor.

O novo vice-rei deu início a sua ofensiva regional para controlar todo o comércio da área e antes de assumir as suas funções de governador, assaltou e tomou os portos de Omã e de Ormuz. Conquistou sucessivamente Goa, Cambaia, Calicut, Narsinga, Malaca e Ormuz (1510-1515). Comandou a primeira esquadra européia a entrar no mar Vermelho (1513), consolidando, assim, o domínio português no Oriente (1514).

Seu plano estratégico era instalar uma linha de fortalezas que pudesse controlar a navegação no mar Vermelho, impondo o domínio português sobre uma vasta área territorial, expulsando as forças do Império Otomano.

Porém, seus sucessivos sucessos de conquistas e sua visão de um amplo domínio português no Oriente, renderam-lhe muitos inimigos invejosos na corte, até que o rei foi convencido a substituí-lo por Lopo Soares de Albergaria, um desses fortes inimigos.

Frustrado e doente, morreu durante a viagem de Ormuz para Goa, quando ia passar oficialmente o cargo de vice-rei ao seu substituto, consciente do boicote de que fora vítima.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

- Lopo de Sousa Coutinho

Sousa Coutinho (Lopo de).
n. 1515.
f. 28 de Janeiro de 1577.

Pai do ilustre escritor Frei Luís de Sousa. Era militar valentíssimo e também notável escritor.
N. em Santarém em 1515, sendo filho 8.º de Fernão Coutinho e de D. Joana de Brito, e neto do 2.º conde de Marialva, D. Gonçalo Coutinho.

Em 1533 partiu para o Oriente na esquadra comandada por Pedro de Castelo Branco. Militou debaixo das ordens de Nuno da Cunha, e esteve no cerco de Diu, praça comandada por António da Silveira, que no principio do cerco o encarregou da guarda das mulheres e crianças, que para não serem bocas inúteis, deviam ir buscar água, lenha, etc.

Foi Lopo de Sousa Coutinho que abriu a longa série de façanhas que neste cerco se praticaram, porque no dia 14 de Agosto de 1538, surpreendido com mais 14 soldados por uns 400 homens de Khodja Sofar, não só os repeliu, mas perseguiu-os até fora da povoação, sendo necessário fazerem-se-lhe sinais repetidos da fortaleza para ele voltar. Noutra ocasião fez uma sortida feliz e atrevidíssima; mandara-o António da Silveira com uns 100 soldados descer ao fosso, mas ele que tinha consigo apenas 85 homens, obedeceu da mesma forma, repelindo o inimigo, e desembaraçando o baluarte de Gaspar de Sousa, que estava sendo vivamente atacado. Muitas outras façanhas notáveis praticou ainda nesse famoso cerco, de que depois havia de ser historiador.

Voltando à pátria em 1545, encontrou morto seu irmão, e tomou posse da herança de seus pais. Nomeado governador do forte da Mina por D. João III, pouco tempo lá se demorou, e regressando a Portugal casou com D. Maria do Noronha, dama da rainha D. Catarina, de quem teve alguns filhos, entre os quais o célebre Frei Luís de Sousa. Foi homem muito erudito, bom matemático e filósofo, excelente latinista, e escritor distinto. Depois de voltar da índia e da Mina, apenas exerceu em Portugal o lugar de capitão-mor da armada. A sua morte foi devida a um lamentável desastre. Estando na vila de Povos, no dia 28 de Janeiro de 1577, quando ia a apear-se dum cavalo em que montava, desembainhou-se-lhe a espada, e caindo sobre ela, enterrou a no peito de forma tal, que faleceu imediatamente. Foi sepultado na igreja do Salvador, de Santarém.

Escreveu: Livro primeiro do cêrco de Diu, Coimbra;, 1556. Traduziu em português as comédias de Píndaro, tragédias de Séneca, e a Pharsalia de Lucano, mas essas traduções não chegaram a ser impressas. Escreveu ainda Empresas dos varões illustres da India. da índia.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

- A Cruz de Cristo sobe outra vez!


No dia seguinte ao devastador ataque sofrido pelo Baluarte da Vila dos Rumes, consultado o Capitão António de Silveira e discutido por todos, decidiu-se que face à impossibilidade de defesa perante novo ataque dos Turcos, os portugueses que estavam nesse baluarte deveriam aceitar a rendição proposta pelos Turcos, que previa que todos seriam bem-tratados e que nenhum mal se provocasse aos portugueses.

Pois assim acordado, nessa manhã começaram a subir ao baluarte soldados turcos. Desta vez não houve resitência por parte dos portugueses, e assim em pouco tempo os Turcos entraram na fortificação portuguesa. Contudo algo diferente do esperado aconteceu.

Da fortaleza portuguesa de Diu, os soldados portugueses nas muralhas assistiam à rendição dos seus compatriotas ao longe. No entanto algo parecia estranho. Parecia que se combatia. Efectivamente, não cumprindo a sua palavra, os Turcos começaram a mal-tratar os portugueses, despindo-os e roubando os seus pertences. Nada do que fora prometido estava a ser cumprido! Para piorar a situação, houve um acontecimento que muito entristeceu os portugueses.

Do alto do baluarte, viram ser deitada abaixo a bandeira da Cruz de Cristo colocada pelos portugueses, e em seu lugar hasteada uma "grande e farpada bandeira vermelha, divisa e insígnias do grão-turco". Esta vista provocou as lágrimas em muitos portugueses, ainda mais quando viram como a nossa bandeira era tratada com tanto desprezo pelos turcos, como se de um trapo se tratasse.

Entre os portugueses que tinham sido encostados ao muro do baluarte como prisioneiros, estava João Pires, "um homem já velho e cansado, o qual, no tempo que as forças o puderam ajudar, viu-se nele sempre muita valentia e juntamente mui amigo de Deus". Este, revoltando-se com o que via, irrompeu subitamente contra os guardas turcos que os vigiavam, de tal maneira que deixou os seus compatriotas espantados. A seguir, chamando seis ou sete portugueses que se libertaram e o quiseram acompanhar, dirigiu-se pelo meio da confusão e dos inimigos que os queriam parar, até à bandeira turca. Tirando-a do seu lugar, "a deitou fora do baluarte quão longe suas fracas forças puderam" de imediato, levantou de novo a bandeira da Cruz de Cristo!

Quando isto viram, os portugueses que da fortaleza assistiam, de novo irromperam em lágrimas, vendo hastear de novo a bandeira que Deus encomendou aos Portugueses para as suas navegações e conquistas! Os turcos, vendo o que se passava, e ao mesmo tempo confusos, dirigiram-se até aos revoltosos portugueses e lutando com eles, conseguiram hastear de novo outra bandeira turca.

E conta-nos Lopo de Sousa Coutinho, que "assim por três ou quantro vezes foi erguida uma e baixada outra, até que os turcos mataram os ditos homens e os lançaram no rio, e com isto ficou a bandeira turca segura".

"Estes portugueses que desta maneira foram mortos e lançados no dito rio trouxe-os a água à fortaleza", sinal interpretado como sendo de Deus, que queria que estes portugueses seus servos e mártires, que tão bem defenderam a bandeira de Nosso Senhor e Portugal, fossem colocados em lugar sagrado".

O Primeiro Cerco de Diu, Lopo de Sousa Coutinho

sábado, 14 de fevereiro de 2009

- Os Heróis do baluarte


  • Ao dia 27 de Setembro de 1538 surgiu envolta na névoa da manhã, a poderosissíma armada turca,
  • A sua missão: Destruir os portugueses que se encontravam sitiados em Diu. Para isto, como se viessem a qualquer uma festividade, os Turcos decidiram engalanar os seus navios, cheios de "muitos estandartes e bandeiras de seda, os seus tendais com ricos paramentos que lhe rojavam pela água." Também os próprios turcos estavam todos vestidos de "festa e seus tambores e clarins soavam com grande ruído". Com o vento de feição, um navio atrás do outro ia bombardeando com os seus canhões, basiliscos e bombardas, o Baluarte da Vila das Rumes. Esta pequena forificação estava separada da fortaleza principal , pelo que os poucos portugueses que nela se encontravam, nenhuma esperança tinham de socorro.
  • Esta poderosa artilharia muitos danos fez aos nossos, matando muitos portugueses, destruíndo as muralhas do baluarte, causando incêndios, e explosões de pólvora por todo o lado. O ar era irespirável, e fumaça da pólvora afectava a visão dos combatentes. Para piorar, muitos dos canhões portugueses explodiram quando foram disparados. Alguma pólvora encontrada uns meses atrás na cidade foi roubada pelos portugueses, que não sabiam que aquela pólvora se destinava a tiro de mosquete e arcabuz. Pois quando se a utilizou nos canhões este erro foi mortal. Muitos dos nossos morreram nestas explosões, outros ficaram severamente feridos. E ainda pior, ficámos sem nenhum armamento pesado capaz de ripostar.
  • "Durou este bombardear dede que o Sol saiu até às dez horas do dia". Incessante, o bombardeamento turco continuou até às quatro horas da tarde, derrubando uma parte das muralhas, que agora ficavam como escadas prontas ao inimigo subir. O desastre estava iminente.
  • Os capitães turcos, vendo que uma parte da muralha se tinha desmoronado, mandam avançar mais de 700 homens, homens, que deixando os seus navios, e em pequenas barcaças avançam para o baluarte, coberto de fumo. À frente destes, ia um Turco que levava uma "grande bandeira vermelha o qual foi com muita pressa subindo pela derrubada muralha, e atrás deles quanto o lugar podia agasalhar". E assim, subindo pelos destroços vieram os Turcos subindo o nosso baluarte.
  • Eis então que no patamar do baluarte surgem dois portugueses, com lanças muito compridas. A surpresa para os Turcos foi total já que estes pensavam que os portugueses estariam já todos mortos. Também da fortaleza portuguesa, os nossos iam assistindo com muita dor e tristeza, sabendo que nada podiam fazer para os ajudar. "E assim, com lágrimas e vontades, atirando-lhe da fortaleza bombardadas, faziam o possível". Restava-lhes assistir imponentes à desgraça dos seus compatriotas.
  • "Não cessavam, porém, os inimigos de com muita pressa e fervor trabalhar de superar os dois". Mas eles, como o lugar fosse apertado, com tanto ânimo e pouco temor o defendiam, como se todos os companheiros os ajudaram, dando-lhes com as lanças e deitando-lhes panelas de pólvora e outros artificíos que os de dentro lhes davam, fazendo sós" o que todos os outros chamariam de arriscado e perigoso. Desta maneira "pelejaram até ao Sol se pôr, derrubando muitos dos contrários das altas paredes abaixo", sendo apenas estes dois homens que sustinham o peso de tanta gente."
  • A só estes dois os turcos disparavam, e apesar de errarem em muitos desses tiros, por serem muitos causaram grandes feridas aos nossos dois heróis. "Mas nem por isso deixavam de mui esforçadamente pelejar, e tanto o fizeram, até que os inimigos desesperaram de aquela vez o tomar, e assim confundidos, de mal seu grado desceram, correndo espalhados uns por um lado e outros por outra, para que os portugueses não lhe dessem tiros da fortaleza, e assim recolheram aos seus navios, ainda estupefactos com tão esforçados homens que enfrentaram". Um deles chamava-se António Pinheiro, de apenas 25 anos, filho de um cavaleiro de Faro. Do outro não sabemos a sua identidade. Fica aqui a homenagem aos Heróis do Baluarte da Vila dos Rumes.

O Primeiro Cerco de Diu, Lopo de Sousa Coutinho

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

- "As ruínas desta fortaleza"


  • O Turco Rumecão, que nessa altura fazia guerra a Diu, conhecendo o estado em que se achavam os Portugueses, pelos poucos defensores e pela fortaleza quase destruída pelos incessantes ataques que tinha sofrido, quis jogar com o fraco ânimo das hostes lusitanas. Chegara a noite cerrada à Índia, e é então que no Baluarte de Santiago, onde estavam alguns portugueses a fazer guarda, ouvem chamar do lado de fora da fortaleza. Em língua portuguesa, dizia ser Simão Feio, que queria falar ao capitão-môr sobre um assunto importante.
  • Foi então chamado o Capitão Dom João Mascarenhas, e este mandou entrar o português. Frente a frente, este lhe disse que se chamava Simão Feio, e que tinha sido mandado por Rumecão, o turco que vendo o valor de tão grandes soldados como eram os Portugueses, queria-lhes poupar as vidas, que eles próprios tão desesperadamente defendiam. Ele bem via como a fortaleza portuguesa estava completamente arruinada, a maior parte dos defendores enfermos ou feridos, sem esperança alguma de socorro, com falta de munições e mantimentos. Era pois de bom-senso que se rendessem, porque para sua própria glória desejaria conservar vivos tão valorosos inimigos. Que nos trataria muito bem, dando-nos a liberdade e os nossos navios, se aceitássemos a rendição e abandonássemos a fortaleza. Se não, pois que todos os portugueses iriam ser passados pelas leis da guerra, e tratados como só os vitoriosos tratam os vencidos.
  • Quando ouviu esta afronta, o Capitão Dom João de Mascarenhas, com a mão no punho da espada, assim lhe respondeu:
  • "Se na fortaleza onde estão Portugueses não há muros, eles defendem-na em campo aberto. Se duvidam disto, então que no primeiro assalto que ousarem contra nós, assim o irão saber! Diz ao Turco para ir pedir mais e melhores soldados ao Sultão, porque nós Portugueses desprezamos vitórias tão pequenas; E as ruínas da fortaleza, essas espero eu repará-las com as cabeças dos Turcos! Se nos faltar mantimentos, ao próprio arraial do inimigo os iremos buscar como despojos. Enquanto os Portugueses tenham as suas armas, isso basta para não nos faltar nada! E à livre passagem marítima que o Turco nos oferece se nos rendermos, diz-lhe que espero mais cedo eu próprio fazê-la, com a espada na mão por entre os inimigos. E a ti, Simão Feio, que não mais venhas cá repetir palavras alheias, senão mando-te espingardear do muro!"

Crónica de Dom João de Castro

sábado, 7 de fevereiro de 2009

- Cerco de Lisboa (1147)


O Cerco de Lisboa, com início a 1 de julho de 1147 e que durou até 25 de Outobro, e foi um episódio integrante do processo de Reconquista cristã da península Ibérica, culminando na conquista desta importante cidade aos mouros pelas forças de D. Afonso Henriques (1112-1185) com o auxílio dos Cruzados em trânsito para o Médio Oriente. Efetivamente, este episódio constituiu o único sucesso da Segunda Cruzada.

Após a queda de Edessa, em 1144, o Papa Eugénio III convocou uma nova cruzada para 1145 e 1146. O Papa ainda autorizou uma cruzada para a Península Ibérica, embora esta fosse uma guerra desgastante de já vários séculos, desde a derrota dos Mouros em Covadonga, em 718. Nos primeiros meses da Primeira Cruzada em 1095, já o Papa Urbano II teria pedido aos Cruzados ibéricos (futuros Portugueses, Castelhanos, Leoneses, Aragoneses, etc.) que permanecessem na sua terra, já que a sua própria guerra era considerada tão valente como a dos Cruzados em direcção a Jerusálem. Eugénio reiterou a decisão, autorizando Marselha, Pisa, Génova e outras grandes cidades mediterrânicas a participar na guerra da Reconquista.

A 19 de Maio zarparam os primeiros contingentes de Cruzados de Dartmouth, Inglaterra, constituídos por Flamengos, Normandos, Ingleses, Escoceses e alguns cruzados Germanos. Segundo Odo de Deuil, perfaziam no total 164 navios — valor este provavelmente aumentado progressivamente até à chegada a Portugal. Durante esta parte da Cruzada, não foram comandados por nenhum príncipe ou rei; a Inglaterra estava em pleno período d'A Anarquia. Assim, a frota era dirigida por Arnold III de Aerschot (sobrinho de Godofredo de Louvaina), Chirstian de Ghistelles, Henry Glanville (condestável de Suffolk), Simon de Dover, Andrew de Londres, e Saher de Archelle.

A armada chegou à cidade do Porto a 16 de Junho, sendo convencidos pelo bispo de Porto, Pedro II Pitões, a tomarem parte nessa operação militar. Após a conquista de Santarém (1147), sabendo da disponibilidade dos Cruzados em ajudar, as forças de D. Afonso Henriques prosseguiram para o Sul, sobre Lisboa.

As forças portuguesas avançaram por terra, as dos Cruzados por mar, penetrando na foz do rio Tejo; em Junho desse mesmo ano, ambas as forças estavam reunidas, ferindo-se as primeiras escaramuças nos arrabaldes a Oeste da colina sobre a qual se erguia a cidade de então, hoje a chamada Baixa. Após violentos combates, tanto esse arrabalde, como o a Leste, foram dominados pelos cristãos, impondo-se dessa forma o cerco à opulenta cidade mercantil.

Bem defendidos, os muros da cidade mostraram-se inexpugnáveis. As semanas se passavam em surtidas dos sitiados, enquanto as máquinas de guerra dos sitiantes lançavam toda a sorte de projéteis sobre os defensores, o número de mortos e feridos aumentando de parte a parte.
No início de Outubro, os trabalhos de sapa sob o alicerce da muralha tiveram sucesso em fazer cair um troço dela, abrindo uma brecha por onde os sitiantes se lançaram, denodadamente defendida pelos defensores. Por essa altura, uma torre de madeira construída pelos sitiantes foi aproximada da muralha, permitindo o acesso ao adarve. Diante dessa situação, na iminência de um assalto cristão em duas frentes, os muçulmanos, enfraquecidos pelas escaramuças, pela fome e pelas doenças, capitularam a 24 de Outubro.

Entretanto, somente no dia seguinte, o soberano e suas forças entrariam na cidade, nesse meio tempo violentamente saqueada pelos Cruzados.

Decorrente deste cerco surgem os episódios lendários de Martim Moniz, que teria perecido pela vitória dos cristãos, e da ainda mais lendária batalha de Sacavém.

Alguns dos Cruzados estabeleceram-se na cidade, de entre os quais se destaca Gilbert de Hastings, eleito bispo de Lisboa.

Após a rendição uma epidemia de peste assolou a região fazendo milhares de vitimas entre a população.

Lisboa tornou-se, entretanto, capital de Portugal a 1255.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

- Bandeira Monárquica


A última bandeira da Monarquia entrou em vigência pelo decreto de 18 de Outobro de 1830, emitido pelo Conselho de Regência em nome da rainha Maria II de Portugal, Conselho esse que se achava exilado na Ilha Terceira, no quadro da guerra civil de 1832-1834.
Este determinava que a bandeira nacional passasse a ser verticalmente bipartida de branco e azul, ficando o azul à tralha; sobre o conjunto, ao centro, deveria assentar as armas nacionais, metade sobre cada cor.

Reza a tradição que a primeira bandeira constitucionalista teria sido bordada pela própria rainha Maria II de Portugal e trazida para o continente pelos Bravos so Mindelo, quando desembarcaram nas proximidades em Vila do Conde para conquistarem o Porto, onde viriam a ficar sitiados ao longo de mais de um ano.

Tem-se gerado alguma controvérsia acerca das proporções do branco e do azul nesta bandeira; a bandeira para uso terrestre era igualmente bipartida de branco e azul; a para uso naval, essa sim, apresentava o azul e o branco na proporção de 1:2, um pouco à semelhança do que sucede com o actual pendão nacional português.